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Leonard Cohen e a ladra abençoada

escrito após o meu 2º e último concerto de Mr. Cohen

 

Diz que a agente lhe roubou uns 5 milhões de dólares – furto duplamente benfazejo: porque isso o fez voltar cá numa digressão inesperada e porque há-de lhe dar para compor algo mais sobre o cinismo, a desesperança e a traição. Pulha abençoada, rouba o Bob Dylan também.

Eram 12 mil para o septuagenário e seus músicos brilhantes mas cada um dos habitantes do Pavilhão Atlântico sentiu certamente que durante aquelas três partilhadas horas, o grave e caloroso ‘friends’ com que Leonard Cohen tanto dialogou era um momento a sós entre dois conhecidos de há muito. Vintões e trintinhas entre muito casal da Linha na meia-idade e sexagenários elegantes e cultos, uns ainda mais novos e mais velhos nas extremidades do eixo. Cohen a dançar para fora do palco como um miúdo feliz por fazer gazeta à primeira comunhão, e os poemas na voz segura do comandante a ecoar pelas paredes e tímpanos dos amantes. Houve riso e lágrimas, um bandolim virtuoso de Barcelona, 24 canções, intervalo para dois cigarros sôfregos, e gente que saiu a cantar ‘Alexandra Leaving’ ou ‘Chelsea Hotel’ – temas que ‘faltaram’, três décadas distantes um do outro.

Há muito tempo que não ia à missa e só não comunguei por me faltar um sincero acto de contrição. Mas descobri que uma voz pode ser luz. Não morra nunca, sacerdote Cohen, não morra nunca porque só as suas palavras nos redimirão.

Luís

crise, conto, baseado numa história verídica, LFB
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Luis Borges

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