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sozinho com o h1n1

recordando os tempos em que fui vítima do “flagelo” da gripe A

 

Terça à noite a febre dispara e começo a delirar. Pelo menos é o que os meus pais dizem porque só me lembro de uns murmúrios. Passei estes últimos dois dias com febre e tosse e, sem forças, a dormir o tempo quase todo. Já se colocou a questão da gripe A antes, obviamente – mas, quando o número de casos rondava os 1500 num país com 10 milhões de habitantes – presumi estar safo. Havia literalmente uma hipótese em mil disto acontecer. Não tenho dores musculares, tonturas, vómitos, dores de garganta nem de cabeça mas aconteceu mesmo.

Faz-se o telefonema para o número de emergência e, após breve questionário, sou enviado para o Hospital. Já não saio de lá. Isolado num quarto com a RTP1 e a RTP-Açores, duas almofadas e uma vista sádica para o mar. Notando o maço de tabaco, uma enfermeira aconselha-me a não fumar – claro – mas acrescenta que, se tiver vontade, é bom sinal. É porque me sinto melhor. Os exames serão feitos bem cedo e depois é esperar pelo laboratório, contudo fica logo o aviso: há 95% de probabilidades de ser gripe A. Dão-me paracetamol para a febre e às 3 adormeço.

Às 6 da manhã é retirada uma boa quantidade de sangue e são feitas duas colheitas com zaragatoas. Uma espécie de cotonetes gigantes. A primeira dá para sorrir: é um momento CSI. Imagino o crime que poderia ter cometido quando abro a boca para a enfermeira plastificada retirar uma amostra do interior, remexendo numa das faces laterais. A outra é arrepiante. Fixa-se um ponto com o olhar e tem de se permanecer absolutamente imóvel enquanto a zaragatoa entra narina adentro para uma profundidade inaudita.

O humor faz cócegas ao cérebro? Não, esta cotonete gigante é que faz. Vá lá que é rápido e, bem, sempre se adquire uma nova experiência. De seguida, Tamiflu. Uma cápsula simples goela abaixo com o auxílio de água – rigorosamente nada de anormal. Fica já de prevenção. Se não for A, não faz mal. Se for, já iniciou tratamento. A febre mantém-se mas baixou e instala-se um sentimento de resignação. Fumo o primeiro cigarro em mais de 48 horas.

À 4ª feira os apresentadores do ‘5 para a Meia-Noite’ reúnem-se para gravar a versão radiofónica do programa para a Antena 3. Uma hora antes ligo à Joana Dias, a condutora da emissão, para explicar o que se passa. Não poderei naturalmente ir ao estúdio da RDP-Açores gravar a minha participação. Sugiro entrar via telefone desde o quarto do Hospital de Angra do Heroísmo. Já que aconteceu, temos uma boa oportunidade de desdramatizar a situação. Nada poderia ser mais actual do que isto. Acaba por ser um momento entre o divertido e o surreal: os colegas não acreditam e acabo a chamar a enfermeira Ana para entrar em directo. Entretanto, os resultados só chegarão às 8 da noite, enquanto vegeto defronte do pequeno televisor entre documentários antigos e ‘programas de Verão’.

Acalmemos os ânimos. A gripe A, como o próprio nome deveria indicar, é gripe. E já tive um par delas bem piores. Continuo com tosse mas a febre vai baixando e nada mais. Não tem de ser um drama, é sobretudo uma chatice. Para todos os stressados com terror dos germes nos locais de trabalho, respirem fundo. Não vos vão crescer caudas nem o cabelo ganhará tons alarmantes de verde. Qualquer um pode apanhar isto e, diz-me a médica, até foi bom contrair o vírus agora. Sim, chega o diagnóstico e confirma-se. Estou perfeitamente estável e tudo vai correr bem. Só preciso de 2 Tamiflu ao dia, Benuron se tiver febre, e quarentena.

Fico desolado por não poder viajar mas, lá está, não se pode fazer nada. Viajei para a Terceira no sábado de manhã e tive os primeiros sintomas na 2ª. Continuo a ser, passados 3 dias (escrevo sábado, dia 22), o único caso daquele voo. Logo, o contágio aconteceu ainda na capital. Vim aqui ver família e amigos numa ‘visita de médico’ e acabo isolado em 12 metros quadrados, no quarto da minha infância. Começo a ter vontade de trepar pelas paredes mas podia ser bem pior.

Já estou familiarizado com a máscara, algo sufocante, mas que só tenho de colocar quando alguém entra no quarto. Os meus pais e irmão também têm uma e, como medida preventiva, tomam um Tamiflu por dia. No Hospital, onde fui tratado com simpatia e dedicação, deram-me a hipótese de ficar mais uma noite mas preferi ir para a prisão domiciliária uma vez que não inspirava cuidados de maior. Sobram-me 3 dias de solitária. Já não tenho febre e, tanto quanto sei, não infectei ninguém.

Os consolos não são poucos: centenas de telefonemas e mensagens. Simpáticos pela preocupação, um pouco dementes ao mesmo tempo. Repito, é uma gripe. Está muito longe de ser o fim do mundo embora os médicos estejam preocupados com o Outono e Inverno que aí vêm. Estou preso mas tenho Internet e TvCabo, sensivelmente o mesmo que – quem sabe? – pode vir a suceder a João Rendeiro e Dias Loureiro.

Não trouxe livros nem DVD’s porque a visita seria rápida e com trabalho à mistura. Já ressaco a luz do Sol, não suporto o bafo da humidade açoriana e sinto-me capaz de dar a volta à ilha a pé mal me apanhar ao fresco. Mas espero ter contribuído para desanuviar este ‘bicho de 7 cabeças’.

Luís

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