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o boneco e a crise

Ele era verde como a esperança, de grandes olhos expressivos e – se preciso – até sofria connosco. Abria os braços num esgar arreliado como quem está constrangido com a situação quando esta não ia de encontro aos desejos do interlocutor. Curiosamente, e apesar dos botins à arlequim igualmente verdes que nenhuma mulher no seu perfeito juízo usaria, em certos locais ele falava com uma surpreendente voz de senhora. “Retire o seu dinheiro”. Quase uma ordem, sem dúvida solene, talvez apenas o prenúncio – afinal – de que piores dias viriam em breve. Urgia que o proprietário levasse o seu dinheiro antes que osubprimeou uma quadrilha o roubassem.

Agora, o boneco do Multibanco mudou. Está mais pequeno, de fundo negro como o ambiente dos tempos correntes e, pobre coitado, chega mesmo a apresentar-se descalço.

A situação deve ter sido algo do género: alguém na SIBS (ou seja qual for a instituição responsável), reparou num saco de dinheiro abandonado a um canto. Ufano, decidiu que era hora de alterar o visual. Os ícones do MB foram transformados. Voluntariamente ou não, o restyling sofreu influências da penosa actualidade. No fundo, gastou-se dinheiro para ilustrar a crise.

Agora, até mesmo quando não há dinheiro ou a manutenção da máquina nos obriga a caminhar até outra “mais próxima”, o boneco já não se envergonha, constrange ou arrelia. Está-se nas tintas. E ontem tive mesmo a sensação de ouvir uma voz feminina sussurrar: “É a economia, estúpido!”.

Luís

curta-metragem, happy end, GoT, 5pMN, canal Hollywood
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careca, smoking, Bruce Willis
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Luis Borges

Luis Borges

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