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Crónica do homem que espera

para o Pedro Múrias

 

A falta de amor não se cura nos hospitais. Se é esse o seu problema esqueça. Enfim, conheço casos de pombinhos que o vieram a ser após encontros regulares no consultório do mesmo psiquiatra. Mas é a excepção à regra. Não se vislumbra hipótese de um jantar romântico à luz de presença dos hospitais. Seduzir uma mulher vestido de bata e equilibrando uma garrafa de soro jamais apareceu nas listas de preferidos das revistas femininas. Diz que não é sexy. Contudo, se trouxer o amor consigo ele pode sobreviver – ainda que venha debilitado o sistema imunológico. Como aquele casal de velhotes, ela a descompô-lo por se sentar torto, por insistir no boné ridículo mas, súbito, lhe aperta a mão com aquela força titânica da ternura mal adivinha ao marido de meio século um gemido quase choro, de certeza envergonhado. Nunca pensei sentir inveja de um homem que pode não estar cá daqui por 6 meses.

“Esta maldade imensa… de onde veio?”

O homem que espera hesita continuar o texto. Está reticente quanto ao humor subtil aplicado aqui e ali, sujeito predicado complemento directo dor dúvida graça. Mas sobretudo indeciso sobre a hipótese de ele próprio ler em voz alta as palavras escritas. Ler em voz alta para um microfone. Ler em voz alta para milhares de desconhecidos sem saber sequer se pretende contar com a sua bondade. Mas a filha entra no escritório e parece gritar a resposta. Embora na verdade nada se ouça.

É tão fácil não ter nada. Recorda o homem que espera. As hemorragias sempre descobertas na casa-de-banho, o enfraquecimento imparável, a dúvida. A dúvida não é nada. No futuro não há-de ser nada. Vai passar. Há-de passar.

“Quem nos está a roubar a luz?”

É sábado. Vai passá-lo a ouvir Pink Floyd, porque assim recorda a juventude e o tempo em que todas as festas de garagem eram românticas e pareciam tantas e o seu cão estava vivo e ele e as raparigas tinham um acordo tácito segundo o qual juntos se esqueciam de que iam morrer. Confessa-o? Por que não? O homem espera escrevendo. E acrescenta: no domingo verei filmes de guerra, ainda não sei explicar bem porquê.

Fecha os olhos, tal qual fez no dia em que a médica entrou com os resultados das análises ao sangue. Antes, numa carruagem de metro quase vazia, supôs ver um homem sozinho a rezar a poucos metros de duas adolescentes debatendo trivialidades. Não acredita em Deus, por isso pediu, mas pediu sincero – com um silêncio carismático como o da filha – que este homem orasse por ele. Olhos fechados. Não mereço isto. Não mereço, Dra.-de-más-notícias-no-rosto. O anúncio do meu fim. A bondade dos desconhecidos. Será a morte uma vergonha tamanha que dispensa até as palavras?

“Quem nos está a matar?”

Vai ter de usar um saquinho – ouviu duas enfermeiras comentarem a um canto mal saiu do TAC, sem absoluta certeza que se referissem ao homem que espera. E ele volta a escrever, num desassombro: a ideia de andar a fazer as minhas necessidades por aí, a ideia, o pesadelo, termina a frase? Não termina? Lerá a dita em voz alta? Filha, o que não dizes?

“Apocalypse Now”, e o homem que espera é agora Brando redux reloaded ressuscitado ecoando, no fim: “O tumor… o tumor… O t…”.

Amanhã começam os tratamentos, salas de espera de quimio e radioterapia. Dor dúvida graça. Uma mulher de sorriso à Gioconda e um peito menos, sempre só. Sou novo aqui. Desejará ela que eu lhe fale? “Muitos homens deixam as esposas quando estas amputam um…” – cale-se, Dr. – o homem que espera sussurra, eu percebi. “Não tenho boas notícias, Sr. Múrias” – cale-se, Dra., sorri. Líquidos nas mãos e raios nas costas. Mais um TAC. Mais uma espera. Para averiguar se o mal inaudito invadiu já o conforto no que antes era só nada. Talvez disfarce estas marcas com tatuagens de sereias e dragõezinhos. E escreve esta frase em silêncio para mais tarde a dizer em voz alta. Num tempo ou noutro, não perde o sorriso.

Se me safar desta, sim, se me safar desta – o homem que espera não levará a mal à administrativa que, presente no dia em que recebeu notícia de uma reunião com a morte, olhou para o relógio apreensiva: “Meu Deus, é tão tarde. Tenho que ir para casa”. Estava certa, certíssima. É tão tarde. Ir para casa.

Já sabe porque passou o domingo a ver filmes de guerra. Toma nota dalgumas deixas em “A Barreira Invisível”, onde uma das personagens de Terrence Malick luta, como ele agora, corpo a corpo. Corpo. No próximo TAC, quando o enfiar na cápsula, esta será um módulo espacial Virgin, em órbita à terra, com estações criteriosas em todos os destinos de sonho.

Lembra-se do pai. No Ultramar, a animar teimoso os irmãos de armas, não importava inquietação ou rajada. O homem regressa então a uma sala de espera disposto, resoluto, resolvido a armar os seus próprios irmãos de humor e atrevimento.

Quando vierem aqueles senhores da televisão, que distribuem beijinhos e presentes pelos pacientes cancerosos, digam-lhes que desejo beijar a Soraia Chaves. Sou um dos pacientes. Não me importo de esperar.

“A partir de hoje sou eu quem te começa a matar, amigo cancro”.

 

(o meu amigo viria a falecer mas antes, pouco antes, encontrou uma última vez o amor).

Luís

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