LIFESTYLE

a aldeia antes de ser global

crónica para a nova revista TRIBO

“Amigo virtual” pareceria uma absoluta contradição nesses tempos. A era das latas de refrigerante no papel de postes das balizas, dos bilhetes dobrados ao limite do impossível com as três cirúrgicas opções: queres namorar comigo? Quadradinho para Sim, Não e Talvez.

A época em que saí à noite exactamente cinco vezes, uma mão cheia de patranhas até atingir a maioridade – contadas aos pais conservadores para garantir a aventura nocturna; sustentadas pelo conluio com os amigos reais, de carne e osso, os únicos que haviam. Uma adolescência de legos e livros Disney, de máquinas de escrever e mergulhos no cais da Silveira, de fantasias com a capital longe-tão-longe da pacatez atlântica dos Açores.

A puberdade intrigada à custa de rubores vários e revistas Gina avulsas. Dos conselhos dos avós doutro século e da influência norte-americana num liceu particularmente grande em terra pequena. Os primeiros romances via Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian e o amor platónico enfeitado com poemas ultra-juvenis apesar do seu clamor novecentista. O telefone fixo e a vida a movimentar-se na mesma.

Os primeiros palcos aos 16 anos e a face corada de olhos no chão. Leituras na missa e a dolorosa estreia duma morte próxima. A descoberta de outras ilhas e a certeza absoluta de estar em casa apesar dos pés caminharem em geografias novas. Dois professores para sempre, um primeiro texto aceitável. Aquela noite no quintal da casa terceirense perante um assombroso céu estrelado e o comentário espontâneo do irmão mais novo: se estamos sozinhos no Universo, para que desperdiçou Deus tanto espaço?

O tempo da aldeia insuspeita de estar prestes a ser global, quando as fotografias eram caras e por isso raras. Na exacta proporção inversa das memórias.

Luís

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