ADVOGADO DO DIABODESTINOS

Carne Viva

um conto inédito para a plataforma Escritores OnLine

 

É um contentamento saber da iniciativa, um lugar onde tantos escritores e vozes se reúnem. Um orgulho ter sido convidado a integrá-la. E uma honra ter estreado a categoria semanal de textos inéditos.

Pediram-me uma crónica, acabou por sair um conto (publicado há uma semana, e neste momento a roçar umas estonteantes 900 partilhas).

Espero que gostem. Nada tem, provavelmente, a ver com o que muitos poderiam esperar.

 

Estou a pensar nas coisas que dizes quando me encontro entre as tuas pernas ou atrás de ti. Mil infernos de conforto a dois, fantasia isolada das rotinas de trintões divorciados e sem ilusões já. Estou absorto nesses pensamentos com o sabor gourmet dos melhores pecados e nem dou por dois acontecimentos. A semi-erecção que já me atrapalha o acto de conduzir e a conversa dos meus velhos sobre exames médicos, seguros de saúde e o último escândalo nas revistas da fofoca. Uma algaraviada decerto benfazeja mas prefiro o meu auxiliar para passagens de tempo. Uma travagem mais brusca forçada pelo instinto faz-me notar a presença deles mas súbito regresso às imagens impressas no cérebro: o fio dental que abandonaste propositadamente numa cadeira da sala, o tom da pele do teu rosto bem acompanhado pela mancha rosa que acende e apaga no teu peito quando te vens, as botas pretas altas com que me surpreendeste da última vez.

O carro conduz-se, por si, piloto automático mental e involuntário, força do hábito, mesmíssimas estradas de sempre e apenas passageiros novos. Sorrio e isso interrompe o diálogo dos progenitores. Querem saber o que me diverte. Digo-lhes Nada, algo de que me lembrei, sem importância. E arreganho ainda mais a tacha, prova-mo o retrovisor, só de imaginar o que sucederia se – ao invés da mentira branca – optasse por dizer-lhes a verdade.

Volto a nós e ao depois de. Menos vontade de rir, nenhuma até. Lembro o anel que me ofereceste embora “sem nenhuma obrigação de o usares”. Daquele par de vezes nestes meses todos em que ficaste totalmente séria, sisuda como a única coruja acordada numa imensidão florestal – e perguntaste, sem contexto nem aviso prévio, “para onde vamos?”. Fico nesta reflexão segundos a mais do que deveria e reformulo: na verdade ficaste melancólica bem mais do que um par de vezes somente e as minhas vagas tentativas de resposta só te fizeram dobrar sobre ti mesma como um bicho-de-conta assustado. Queria pedir-te desculpa, mas para quê.

De modo a afastar esta nuvem sombria esforço-me por lembrar todos os pormenores daquele fim-de-semana em que nos trancámos num hotel de luxo ao sul, acompanhados de vinho bom e cocaína melhor, e fodemos com todos os sentidos mais despertos do que os dum suicida arrependido, a grunhir como os animais que verdadeiramente somos, num comportamento de barbárie pura que só a química resultante de fodas épicas consegue assegurar. Essas são as alturas, sabes bem, em que estamos no nosso melhor. Corpos suados defronte de espelhos, arranhões na pele e cabelos repuxados, gritadas todas as palavras que há muito-tanto-distante tempo nos fizeram corar. A marca dos teus dentes nos teus ombros e braços, às vezes no meu peito, o orgulho sôfrego do silicone das tuas mamas, os saltos altos tão anacrónicos para uso horizontal em camas avulsas – mas como tu sabes o quanto me excitam esses símbolos singulares de feminilidade, a perna mais torneada, o corpo elevado, a atitude poderosa, possuir uma mulher de saltos altos apenas é dormir com todo o vosso sexo duma só vez.

Portanto não estou efectivamente cá quando numa zona de 30 kms/hora um táxi acelera de propósito para se atravessar à minha frente e, interrompidos de forma abrupta os bólides e estacionados de esguelha a um par de centímetros um do outro, quais rinocerontes enfrentando-se pelo privilégio de acasalar com a fêmea prestes a testemunhar a refrega, só retorno ao momento presente quando vejo o condutor barafustar por palavras e gestos, ambos (in)dignos uns dos outros, coerência arruaceira. Vidros abrem-se, ofensas trocam-se e em menos de 5 segundos estou a sair intempestivo do carro na direcção do homem de meia-idade momentâneo adversário, apesar da mãe me chamar e invocar o Criador e implorar que permaneça na viatura.

É de noite e estamos frente a frente. A zona é tranquila, não há mais rinocerontes por perto. Medimo-nos um ao outro e há uma escalada de insultos. Certo que, durante um nano-segundo, escutei um grilo falante garantir-me que não valia a pena, irracional tudo isto, mas que diabo, o tipo tem muito bom corpo para levar e aguentar – vocifera um imaginário demónio sobre um dos ombros; e não sei se foi do enésimo “filho-da-puta”, da agravante de ter os meus pais ali mesmo atrás, dos meus 39-quase-40-anos-copo-de-água-prestes-a-transbordar, mas aconteceu.

Enfiei-lhe o primeiro de baixo para cima e provavelmente parti-lhe de imediato a cana do nariz. Nunca me saíra um murro assim nem prevejo um bis – ainda que longínquo no futuro. Mas sabes como é. Lembras-te daquela noite no Norte, em tua casa, quando o tema da conversa entre quecas era a quantidade enciclopédica que acumulamos de conhecimentos inúteis? Pois talvez um dos meus neurónios tenha como única função guardar a info segundo a qual uma pancada no septo nasal provoca a maior dor que pode ser infligida ao ser humano. Curioso, não é um pontapé nos testículos, embora seja provável que este venha num renhido 2º lugar. E quiçá a utilidade exclusiva de outro neurónio fugidio se caracterize pela posse razoável da noção de upper cut, e que os pugilistas os procuram como avançados perseguem golos. Não sei. Sucedeu apenas.

Acredito que o segundo gesto, um biqueiro nas costelas do lado esquerdo, bem preparado pelo facto do fulano se ter agarrado instintivamente ao nariz enfiado crânio dentro e de pronto se debruçado sobre o próprio corpo de joelhos, foi para puni-lo enquanto símbolo duma classe de racistas, xenófobos, machistas, comentadores de vão-de-escada. Óbvio, não faço ideia se este indivíduo em particular se angustia pelos dois Salazares de que Portugal precisa nem quantas vezes proclamou a passageiros incautos a indómita necessidade do regresso “dos pretos a África”, mas naquele instante vi tudo isso reflectido nele. E assim foi.

Não parei. Apesar da memória fugidia dum taxista que me ofereceu um livro de poemas de sua autoria e uma das conversas mais agradáveis entre todos os diálogos que alguma vez mantive com desconhecidos. Não parei, pese embora outro nano-segundo de clareza me ter garantido que o homem tinha prioridade.

     Já deitado de lado acocorei-me sobre ele, as minhas pernas manietando as suas, passe a expressão, e fui desferindo braços retesados com cadência de ritmo tribal. Levou pelo chefe que me quis foder, levou pela última puta que amei, levou por aquele cão atropelado mesmo à minha frente quando tinha 11 anos, o ganido lancinante que lançou para jamais abandonar os meus tímpanos, as lágrimas de impotência e raiva que o assassino em fuga me provocou.

Sangue a espirrar por aquele bully do liceu que morreu gordo e bêbado ao desequilibrar-se numa falésia madeirense; dentes no chão por raiva da cobardia do meu pai, sempre timorato, não se brinca com a tropa, o respeitinho é muito bonito, paga e nem tussas; o som seco de ossos a quebrarem-se pela maldita mãe da minha mãe – que lhe arruinou sonhos e cantos. O taxista pagou por tudo duma vez só. Parei entre prantos maternos e um ataque epiléptico do pai.

Agora tenho os nós dos dedos em carne viva, Mara, e vejo como muito incerta a hipótese de estar, de novo, dentro de ti.

Luís Filipe Borges, LFB, pic, photography, vender
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