ADVOGADO DO DIABODESTINOS

cidade das sombras

Angra do Heroísmo, do Erotismo, do Sismo, do Idealismo.

Uma cidade no coração do mundo – e mais uns quantos clichés
próprios dos apaixonados. Uma crónica de amor.

Escrevo um requiem aos heróis que não regressarão jamais. Não, apenas sonho. Não sou compositor, sou compósito. Tenho as mãos cheias de terra de Angra do Heroísmo e as minhas unhas estão sujas dessa terra e o meu coração sente falta desse adubo, ao escrever, em Lisboa, sobre ela. Recordo-me de ter 15 anos e escrever, orgulhoso, sobre os soldados-políticos liberais e os poetas-guerreiros que impediram os espanhóis de entrar e, quando entraram, os obrigaram a construir uma das maiores muralhas da Europa (o castelo de S. João Baptista) que os protegesse dos Angrenses.

antes do mal

Tomo café numa esplanada em que vejo o mar, e sobre o mar há livros e versos de Emanuel Félix, a imagem de uma mulher triste que mira o relógio à espera do marido emigrado. Olhos Negros em todo o sítio, pedindo no silêncio uma explicação para o amor e para a morte. O céu é daquele tom cinzento impressionista tão nosso, pão nosso, Pai Nosso. E calculo que os Belle&Sebastian que ouço nos fones seriam musas no Monte Brasil e lvo Pogorelich tocaria à esposa falecida, durante dias, no interior de uma igreja com quadros recém-restaurados.

Na rua movem-se as sombras dos amigos que partiram, dos amantes que não chegaram ainda, dos intervalos nas leituras, dos filmes do nosso imaginário, de monumentos que ruíram. Das expressões de espanto e medo que caracterizam a fisionomia dos açorianos, habituados a sismos e vulcões, alimentados a vulcões e sismos. Autores da vida com consciência do efémero que, talvez por isso, dão valor àquilo que criam e ao que querem.
Vejo-me velho, a recordar as páginas dos livros que não escrevi, nem li. Em Angra do Heroísmo, onde até estas crianças que hoje brincam envelhecerão.
Nas ruínas de um antigo solar, realizo o meu filme: empresto vida às sombras de todos os amigos que tive. De todos os parentes, das pessoas com cujo olhar me cruzei. Peço-lhes que descrevam o destino, peço-lhes que escolham uma canção, um vinho, uma imagem. Peço-lhes que desenhem o seu auto-retrato e que me falem sobre Deus.

Pergunto-lhes pelos engenheiros, pelos médicos, advogados, polícias e astronautas e futebolistas que sonharam ser. Pergunto-lhes pelos sonhos. Pelas danças que não aprenderam, pelas exposições que não viram, pela arte que não interpretaram, pela que não fizeram, pelos filhos dos filhos dos filhos de.
Gostava de, no final de tudo, saber o que levamos da vida além da sombra.

além da sombra

Hoje, passei a tarde no Arquivo Municipal a requisitar e consultar jornais antigos. Uma agradável sensação de imortalidade intrometeu-se nas minhas veias. Deixei que me iludisse com mais um momento da minha colecção de instantes perfeitos. Aconselho a todos este tipo de álbum. Liberta-nos dos momentos de mesquinhez, de intriga, de infidelidade. Quando sentimos que o tempo empregue foi desperdiçado. Preencham o cérebro – o verdadeiro computador pessoal – destes momentos. Ajuda a compreender melhor certos ditados, poemas, declarações antes da morte, segredos, fantasmas. Até mesmo as perversões pessoais dos homens.
Em Angra, o tempo não passa, acontece apenas e não é pouco. Enquanto os dias se sucedem e não somos músicos, seria bom se nos entretivéssemos com o nosso chão feito de lava. É dele a melhor lição sobre a vida, que fala da importância do segundo que acaba.

Luís

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Luis Borges

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