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crónica ao espelho em dia deprimido

Os dias não estão para aventureiros, artistas nem sonhadores. Abençoados os ignorantes. Que pode um cronista fazer, armado de dúvidas e desejos, avesso aos grandes líderes de canudo tirado ao fim-de-semana, fazendo mesa de escritório na esplanada do café onde se senta de calças rotas (numa vã tentativa para não crescer)? Heroísmo inútil, idiotas úteis, empate a zero.

Se até Lorca escreveu que ainda está por fazer o verso que atravesse o coração de um lado ao outro como uma espada, que pode a crónica urdir se não tem as balas do poeta? A beleza arrogante da poesia, corajosa quanto baste para não se desunhar em cobrir o branco da página com mil palavras. A inveja pode ser bonita, pode. E a música? Adultos adiados adicionam ao poema notas. Pop. A redenção em 3 minutos e meio de palavras e melodia a dispensar imagens e tempo. Sacanas. Há um adolescente na mesa defronte que ousa ensurdecer com “I’m outta time”, dos Oasis, nos auscultadores do iPod. Também tu, bruto?

E a dança? Sem palavras, imagine-se. Palavras, apenas palavras, não é, desdenhoso e irónico bardo de Stratford-upon-Avon? Vão-se mas é todos lixar – sim, vocês também, casal de jovens namorados que atravessam a rua inconscientes da vossa própria dança contemporânea improvisada. Ela abraçada a ele como uma trepadeira, rodopiando sem colocar os pés no chão e a girar sobre o eixo do corpo dele, ambos um planeta em órbita ao desespero. Preciso de me acalmar. Ou então levar-vos para casa, bem regados dia sim dia não, perto da janela ao sol, e ver-vos crescer. Sai daí, gato, o amor não é p’ra comer. O elogio do amor puro. Não enche barriga, é o que é.

E a pintura? Pode a crónica criar o desassossego de Guernica (“não fui eu que fiz isto, foi você” – Picasso para o oficial nazi) ou a inquietação nas linhas aparentemente fáceis de Rothko? Acaso um texto poderá um dia estar no Louvre, exposto perante uma centena de olhos em movimento pelos quatro cantos da sala, examinando se o título sorri de forma diferente, agora mais perto depois mais longe, ou se o ponto final nos segue com a sua mirada? E a escultura? E o cinema? E a fotografia? E o teatro? E o romance? E fazer um filho? Sim, e fazer filhos, pá?

Malditos talentos dissolutos, imortais antecipados, clássicos ameaçadores e persecutórios que lembram a crónica de que esta não verseja, não canta, não dança, não pinta nem representa nem fotografa. Entregue à sedução da sua forma, ao efémero da sua condição, ao carácter lúdico de quem a assina. A pretensão tola de trocar a plateia à espera de opiniões por um encontro semanal com o leitor. Um copo imaginário bebido com um desconhecido amável ou um romântico blind date com uma leitora.

Abençoadas artes, todas. Bendito puto do iPod, abençoado par de pombinhos. Querido Mário “Quase” e o malfadado golpe de asa faltando, faltando para ir mais além. É isso que o cronista pode fazer. Guardião do purgatório sito algures entre a sarjeta e as estrelas. Hospital de campanha dos que queimaram as asas no caminho para o sol. Os tempos não estão para isso? Que se danem. O cronista sonha uma vez por semana, uma escala a cada 8 dias – apesar dos defeitos e falhas e destino incerto – com o leitor à espera.

Luís

 

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