ADVOGADO DO DIABODESTINOS

qualquer dia mato-me outra vez

a partir duma notícia sobre uma vítima de bullying,

inspirado numa história real

 

Ela não sabe bem que comprimidos eram, porque os rótulos variavam, nem tem a certeza de quantos foram, mas disseram-lhe que é um milagre estar viva. A mãe faz-lhe perguntas sobre o outro lado porque a filha esteve clinicamente morta durante meio minuto. Mas ela desespera pois não sabe como descrever a mais perfeita escuridão. Ocorre-lhe que o além pode ser uma cegueira profunda mas evita confessá-lo pois sabe que os pais católicos a desejam reencontrar no Céu. Durante o coma, parece que ele segredava-lhe poemas que lhe lera na infância para ajudar ao sono, mas ela só recorda o “Cântico Negro” e esse leu já na adolescência. Para poupar o pai, afirma lembrar-se contudo do aperto forte dos dedos da sua mão.

A pergunta mais difícil é também a mais simples de proferir: “Porquê?”. Não sabe, a questão é que ela acha nada saber. A resposta para tal merece assim a mesma indecisão de toda e qualquer outra pergunta.

Por que é que na escola gozam com ela?

Por que é que tem peso a mais se quase não come? Por que é que chumba se estuda?

Por que é que Lisboa não é a cidade que ela imaginava quando apenas lia sobre ela?

Sabe somente que é uma caloira assustada a quem, juram-lhe, sucedeu um milagre. Mas no outro dia sofreu uma insónia e escutou os pais a discutir sobre o dinheiro que falta e, bem mais terrível, sobre os porquês deles próprios. A culpa, o falhanço, e o terror.

No domingo seguinte, voltou à igreja para se confessar e disse aquela frase ao padre. 5 palavras só. E agora?

Luís

3D, média, new media, simbologia
Post anterior

a simulação de algo que nunca existiu

Post seguinte

José Valente: A história de um pescador peculiar I

Luis Borges

Luis Borges

Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *