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generation gap

Estou a transformar-me num homem de dois maços e aceitar a dura realidade custa mais do que o cabelo em excesso na banheira, segundo essa perversa lei da compensação que obriga por outro lado o pêlo a aparecer nos sítios mais despropositados.

Tenho um amigo sexagenário que está abaixo do maço único e possui uma bela careca. É difícil arranjar belas carecas – os Bruce Willis não abundam apesar de uma esperançosa canção de Carnaval (certamente escrita por um calvo infame). Mas adiante.

É soturno chegar para o Davidoff e a moça da tabacaria (risonha, porquê?!) já saber que são dois. Sobretudo quando a minha melancólica geração não aguenta o excesso. Conheço veteranos de três maços e meia garrafa de whisky por noite incapazes de partilhar, no dia seguinte, o segredo para curar a ressaca. Não sabem o que isso é. Experimentem beber e fumar com jornalistas lendários, ó jovens trintões. Naquela meia hora entre a cama e o primeiro café somos um dragão. A garganta tão inflamada dir-se-ia habilitada para cuspir fogo. O lado positivo? Pelo menos durante 30 minutos também acedemos ao patamar do mito. Agora, se me dão licença, vou tossir sangue e pentear a penugem dos ombros. Enfim, ao menos o próprio Kong era King.

Acordo amargo e defronte do espelho amaldiçoo essoutras referências avulsas que passaram os anos 80 a tornar o seu sangue ingrediente menor de um cocktail com toda a espécie de drogas – e recuperaram. Então e nós, os que não se drogam? Não merecemos respeito? Preferimos um vício de menina à maldita cocaína, é certo, mas num homem de dois maços nicotina = estricnina (e adverte-se o leitor, à laia de pedido de desculpas, que as rimas ficam por aqui – sobretudo se o leitor se chamar Cristina).

Sei de um tio por afinidade que foi homem de 4 maços durante uns anos e, quando parou, transformou-se num indivíduo de uma tonelada durante uma década. Queria só partilhar isto. Sim, pelo menos tinha uma boa guedelha.

Pelo sim pelo não, pêlo no nariz, pêlo nas orelhas, comprei aquelas pastilhas milagrosas. Levo-as a passear vai para um trimestre. Fazem-me companhia com as suas promessas de ilusão (ou será o contrário?). As notícias fazem-me puxar de um cigarro, o medicamento dá-me esperança. Na minha idade diz que – se deixar de fumar – dentro de 15 anos não terei nenhum vestígio nos pulmões (pêlos inclusive, espero). E uma careca sexy? Isso é que era.

Luís

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