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José Valente: A história de um pescador peculiar I

 

Houve em tempos um pescador que se contava capaz de apanhar douradas magicas. José Maria Valente nasceu numa casa desocupada entre três gerações de parideiras. Seu pai, António Valente tornou-se mestre de obras num canto de uma anterior sala de estar.

A divisão era iluminada por falta de porteiras em sombras quadradas que rasgavam o chão cimenteiro. As paredes assemelhavam pinturas rupestres quando ainda não existia o conceito de arte urbana.

 

A primeira visão disparava os corações mais aguçados. Ali estava, no meio de odores e dilatações sofridas, arrancado de um regaço desfeito, um corpo inanimado. António Valente, como individuo que dá demasiada importância a acontecimentos do acaso, assumiu a responsabilidade de réu. Havia no seu passado uma promessa por honrar. Uniu os punhos e cerrou os olhos munido de pensamentos ferozes que se faziam ouvir como o choro calado do seu filho. E as suas lágrimas salgadas caíram sobre as mãos pálidas de José, apagando as linhas genéticas que ali tinham lugar.

O peito daquela criança é misteriosamente rasgado. Aparenta pequenos movimentos de trampolim que o estremecem. António já tinha avistado aquelas aberturas cicatrizadas nas suas pescarias. E depois do espanto ficou impressionado, logo ali soube que tinha sido acudido. As evidencias eram claras, apesar do seu corpo franzino e disforme, José era fruto de um milagre.

 

Em contrapartida, Eugénia lia o Evangelho num ato de cristianismo primitivo excomungando um possível pecado do pequeno ser. Entoava palavras que não entendia na esperança de apagar o sucedido.

 

D. Alice, mãe de eugenia apoiou o corpo contra a parede, vazia de reações. Assim ficou até cerrar os olhos. O dia incitou um mutismo auto penitenciado. Ora aprofundemos. Alice obtém o seu sustento através de um vínculo ímpar com o além. Tendo sido procurada ao longo dos anos por quase todos os aldeães para uma possível paz espiritual. Pago a peso de ouro não fosse este dom, um raro toque de céu na terra.

Mas a vidente local era desprovida de qualquer contacto desde que gerou eugenia. E ao assistir a um comprovativo espiritual desta envergadura, temeu pela sua alma pecaminosa.

Resolveu punir-se de forma a restaurar uma pressuposta virtude.

 

A terceira mulher mantinha a calma. Limpou a criança, envolveu-a em trapos e colocou-a no corpo sem vida da mãe. Não falava apenas murmurava sons de velha idade. 

Jamais viriam a falar sobre esta tarde.

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Sara Santos

Sara Santos

3 Comments

  1. 17 Julho, 2017 at 12:51 — Responder

    Gostei muito!

  2. 21 Julho, 2017 at 12:23 — Responder

    muitos parabens,

    grande homenagem e merecida ,
    lindo texto

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