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O milagre de São João

Chinelo no pé, sonhos na mão III

2ª feira, 10 de Abril. O nosso primeiro dia com carro em São Tomé. Um Dacia amolgado, com um terço de depósito, direcção torta e suspensão perra (descobriríamos, dias depois, que o pneu sobresselente estava mais careca que uma bola de bilhar).

São 10 da manhã e o plano é arrancar desde Santana para as praias do sul, uma hora e meia de caminho sem paragens. Mas cometi um erro fatal: ao acordar, tomei o Malarone com água sem antes comer algo. E dou comigo de cabeça aluada, a bocejar três vezes por minuto, um desconforto geral sem dor mas um cansaço extremo. A salvação surge via aquele neurónio que guardou a seguinte info: uma imagem mental da Roça de São João. Ao virar a enésima curva reconheci, entre a vegetação luxuriante no alto duma encosta, um excerto da antiga casa colonial – vista antes somente em pesquisas na web.

Vamos parar para um café, uma água fresca, e a esperança duma sensação melhor, uma autorização física para seguir viagem. Afinal, veio a surpresa: o mal matinal viera por bem. O plano saiu completamente furado mercê do destino. Seguiu-se um dos melhores dias da minha vida.

Chegamos perto do meio-dia e a Roça está calma. Convém explicar aqui que ela é pertença de João Carlos Silva, são-tomense cozinheiro, animador cultural, génio da comunicação, hoteleiro, o homem de “Na Roça com os Tachos”. Há meia dúzia de anos foi meu convidado no ‘5 para a Meia-Noite’ e ficou o convite para ser seu hóspede quando visitasse a grande ilha do pequeno arquipélago africano. A timidez não me permitiu contactá-lo antes da nossa partida. Agora, eis-nos cá e João lá ao fundo, trabalhando arduamente no que virá a ser um almoço memorável.

Começamos por tomar o melhor café de sempre – afinal, estamos na terra dele, e do chocolate. Funcionários amáveis preparam o grande salão com vista de cortar a respiração sobre a aldeia de São João dos Angolares, uma enseada com baía e morro que poderiam viver no Rio de Janeiro, sem chocar minimamente o adjectivo da Cidade Maravilhosa.

Súbito, começam a chegar pessoas atrás de pessoas. E um velho casal norte-americano senta-se connosco para café e conversa. Estão a bordo dum cruzeiro pela West Africa, ela é oriunda da Suécia e ele conhece bem a ilha Terceira, minha terra-natal. Depois a Sara reconhece um antigo colega de curso, com o feliz nome de Dário Pequeno Paraíso, fotógrafo, modelo, director artístico da CACAU, responsável pela comunicação da Roça de São João. E o mundo parece confluir inteiro para este pequeno ponto no tempo e no espaço. Perco enfim a vergonha para abordar João Carlos Silva. Apresento-me. Luís, há 6 anos no ‘5’, o Sr. João lembra-se? E este verdadeiro ícone local abraça-me como se me aguardasse desde sempre. Estou em casa.

Num ápice, o restaurante está cheio. E conseguimos dois lugares por especial favor. Na nossa mesa ficam a Joana, a São e o Wilson, personagens de futuros textos. O almoço é uma maratona sublime de 7 pratos para degustação e 3 sobremesas finais, entremeados por um prato principal à escolha – difícil – dum trio. Opto pela feijoada de frango em óleo de palma, bebo uma Rosema, converso, rio e agradeço estar vivo. As horas passam e, antes do grosso dos turistas abandonarem esta escala, João faz um discurso sobre a filosofia da casa, a poesia culinária, o esforço dos 20 rapazes e raparigas que emprega ali. Há aplausos no fim e um moço vem a correr da cozinha para agradecer à plateia com o sorriso luminoso de quem genuinamente se orgulha. João Carlos Silva transforma num verdadeiro espectáculo a refeição já de si épica e o resultado é puro e comovente.

Finalmente temos tempo para conversar a sós, ou mais ou menos. Pois o Dário aproveita para filmar um diálogo de improviso para a RTP-África enquanto conversamos num miradouro de madeira sobre o entardecer africano. A melhor versão do Leve-Leve.

Saímos de regresso e paramos dez minutos depois para fazer carreirinhas na praia virginal de Micondo, aproveitando sôfregos a última luz. Abandonámos a roça com a certeza de que regressaremos, um convite para a residência artística promovida pelo Mestre João e muita curiosidade em conhecer a creche para 200 crianças dos Angolares suportada por esta verdadeira Secretaria de Estado da Cultura de São Tomé.

E, ao conduzir de volta à nossa casa destes dias, noite dentro já, dou comigo a pensar em como soaria Lou Reed com os ritmos são-tomenses. “What a Perfect Day”.

Luís

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Luis Borges

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