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A dia 7.03.2017 a morte caiu do céu

Pensei muito sobre escrever ou não este texto. Deixo os pormenores e fica o respeito. Este é o relato de um dia que ficará para sempre em mim.

7.03.2017

Acordo sempre cedo, mas decidi dormir. Só mais um bocadinho.

Depois um estrondo. O ladrar dos cães impacientes. Os vizinhos à porta. E o Luís ainda dorme. Insistem em entrar.

O meu corpo apressa-se a prender os animais na sala, abro a porta e acordo.

“Uma senhora caiu no vosso terraço”

Corro. Abro as janelas. Sem perceber os rostos à porta. O desespero da filha que procura uma reação. E ouço mais uma voz que me pede que não vá. E sem querer, dizem tudo. Ficamos ali, na entrada. Só nos resta esperar em silêncio que alguém nos socorra. A nós agora.

O Luís acorda e vai para a sala. Mas a minha mente imagina. Sente que aquela senhora poderá estar viva. Sozinha. Num chão de pedra. Eu consigo. O meu coração secou com o tempo. Foram os meus olhos que um dia ousaram chorar demais. E o medo não murou mais em mim.

Está viva. Respira. Inconsciente.

Caiu de três andares. Tem 77 anos e está viva no meu terraço. A filha chora abraçada a um vizinho. Não existem palavras certas. Apenas o toque. Fico lá fora, mão dada. Sem saber melhor. Espero que cheguem. Não sei rezar e gostaria de acreditar em algo. Talvez fizesse a diferença.

Os bombeiros chegam. A policia chega. Os vizinhos partem. Não sei quanto tempo passou. Sei que tentaram. Não chegou.

“Com um dia tão bonito”

Ainda não sei o seu nome. Vivemos num mundo de estranhos que se cruzam cordialmente sem se ver. Bem apresentada, de saquinho à espera da carrinha do centro de dia. E agora nada. Ninguém poderá ter a certeza mas todos temos o mesmo pensamento. Desistiu. Talvez se tenha cansado de esperar.

A empregada do segundo andar limpa os vidros da sala, os cães brincam no jardim. Os cafés são bebidos, o senhor António lê o jornal. Ninguém reparou que o medo voltou para mim.

Sara

Agradeço aos bombeiros e à policia que nos ajudaram neste dia. Que infelizmente passam por momentos como este mais do que uma vez. Obrigada.

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Sara Santos

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