ADVOGADO DO DIABODESTINOS

O voo

um conto

Um admirável mundo novo. Miguel não conseguia compreender. Olhava à sua volta e não entendia. Nada. Que estranha sensação era aquela que o deixava perplexo, extasiado de emoção? Adjectivos fortes, os mais fortes que jamais utilizara. Logo ali, num ambiente que ele conhecia e amava, sucedia algo completamente inesperado. Ele gritava, mas – estranho – de júbilo, estarrecido por aquela surpresa que o tomava por completo.

E é literal a expressão: Miguel tinha sido elevado, possuído por uma força misteriosa que o suportava no ar, arrancando-o do sono em que permanecia há horas, a gozar como devia a delícia plácida daquela tarde de Verão. Aliás, Miguel já se habituara àquele descanso a meio do dia. Útil, entenda-se. Não preguiçoso. Pelo menos ele não o perspectivava assim e, verdade seja dita, ninguém alguma vez censurara a sua sesta. Mas agora acordava de maneira abrupta, sem os afagos da sua companheira adorada que, todavia, estava lá, na sala, presença inerte, sorriso estampado na face alva. A mais branca e bela que Miguel conhecia. Devia também estar um homem naquela sala, Miguel habituara-se a ele e à sua presença agradável de bom companheiro. Mas não o conseguia ver. Àquela hora do dia, esse homem costumava testemunhar o momento em que Miguel abria os olhos, reconhecendo-o logo pelos cabelos grisalhos que este deixava serem puxados e revirados pelos dedos de Miguel. Mas hoje, repete-se, nada fazia sentido, tudo estava alterado.

Miguel, contudo, parecia alheio a essa quebra na rotina. Na verdade, estava tão surpreso como radiante, no gozo daquele prazer tão estranho: como defini-lo?, levitar? E, súbito, movia-se. Conduzido contra a luz do Sol, a vidraça entreaberta parecia ser o destino de uma breve viagem. Voava. Miguel quis parar, era impossível, teve medo de bater e fechou os olhos, entretanto atordoados pelo repentino clarão. Quando recuperou a coragem, abriu-os e estava no jardim a sentir o vento percorrer-lhe os cabelos, a luz aquecer-lhe o rosto, o riso da mulher amada mais distante.

Então notou claramente que estava preso a algo físico, que não o magoava, antes parecia apoiá-lo de modo a ser mais levemente transportado por entre os arbustos e as flores do jardim. Miguel voava velozmente. Ouvia gargalhadas, risos que o cativaram e riu também, sem se deter, sem nunca se deixar intrigar para não perder o momento, para não deixá-lo passar sem que dele retirasse o máximo.

meio

Aonde iria parar?, o que lhe sucederia?, iria cair?, essas eram questões que, por estranho que pareça, não colocava – apesar da sua vida correr risco. Era de todo incompreensível o que estava a acontecer, mas inolvidável, e Miguel quis falar, dizer isso mesmo, o último dos adjectivos que lhe acorrera à mente, mas não conseguiu, e nem por um segundo tentou resistir à força que o conduzia sem magoar.

Ele voava. Seria possível, afinal, também ele ser como os pássaros dos ninhos do jardim, como esse Ícaro de quem uma vez ouvira falar, como os aviões que ele agora acompanhava de mais perto, sem que os seus pés tocassem o chão? Quis aproximar-se do ramo da árvore maior do jardim e foi para lá que voou mas os passarinhos fugiram. Então Miguel concluiu que, sempre que esticava os braços apontando para algum lugar, era imediatamente conduzido para lá. Ao fim de algum tempo, ele tinha descoberto enfim como controlar a força, fosse o que fosse, a energia, o motor, o fascínio, o prazer, as asas, parecia que o leme estava encontrado. Miguel já não estava completamente à mercê dos caprichos do mistério.

Voava mais baixo agora, rente à relva onde costumava passar horas com a mulher bela que o espreitava ao longe, encostada ao muro que circundava o jardim por onde Miguel planava indefinidamente. Estava suficientemente perto para poder agarrar uma bola esquecida junto ao plátano dos ninhos. Miguel sorriu ao pensar que fazia com a bola qualquer coisa de semelhante à que se passava com ele. Controlava-a, conduzia-a, levava-a a voar – a única diferença era a impossibilidade da bola indicar para onde desejava prosseguir voo, incapaz que era de criar braços e esticá-los no ar.

Invejou a bola. Ela não podia começar sequer a temer aquele misterioso desígnio. Não podia recear magoar-se na hipotética queda e, se fosse deixada cair, voaria ainda um pouco mais, enquanto a força da gravidade a fizesse saltitar. Numa inesperada curva de 90 graus no seu voo, Miguel viu a mulher que amava e decidiu atirar a bola para junto dela e sorrir – mostrar-lhe que estava ali e que estava bem.  Ao ver a bola ser recolhida pelos braços da mulher, invejou o objecto uma vez mais.

fim

A mulher deu alguns passos e agachou-se para apanhá-la. Chamou-o. Como se não compreendesse, a força prosseguiu o voo, mas Miguel cansara-se. Indicou por diversas vezes o rumo pretendido, esticando os braços no ar, mas nada aconteceu. Ao contrário, a força parecia aumentar. Miguel voava cada vez mais rápido, cada vez mais rente da relva ou do plátano, das sebes e do céu. Via as nuvens acercarem-se da sua cabeça sem ter tempo sequer para imaginar nelas o rosto da mulher que chamava. O voo terminaria? Poderia nunca terminar? Miguel assustava-se. E se a terra nunca mais estivesse ao seu alcance? E se a força o condenasse a viver para o resto da vida no ar, sem pertencer a nenhuma casa, entre o solo e os astros, habitante de nenhures, eterno errante? Soluçou. A mulher tinha os pés bem assentes no chão. Era agora uma estátua imóvel, firme, serena, que mantinha o sorriso dócil apesar do medo crescente que crescia na face e no corpo de Miguel. Queria tanto aquela mulher que sorria, que tantas e tantas vezes o acariciava como só ela podia fazer, logo que lhe sentia necessidade fosse do que fosse, e Miguel nem teria de se manifestar. Adivinhava-lhe os pensamentos, os sonhos e os temores. Mas agora, as dúvidas assolavam-no enfim – e, sem respostas, angustiado por não realizar aquele desejo mais poderoso, Miguel chorou.  Chorou por não ser conduzido ao chão, até ela, chorou pela sua aparente indiferença para com o susto que vivia.

  • Pronto, pronto. – disse o homem de cabelo grisalho pousando-o na relva macia – Também já estou cansado. Vai lá ter com a mãe.

E Miguel lá foi cambaleando depois de se ter voltado para mirar, do alto dos seus dois anos, o rosto amável daquele homem a que ele chamava “Páa”. Quanto à mulher, a bela, já merecia uma designação mais complexa, com mais uma sílaba de afecto:

  • Mamã!

E abraçou-a e quis brincar com a bola que não tinha sonhos nem temores nem braços para esticar e indicar o rumo pretendido à força que fazia voar. Mas a mãe pegou-lhe ao colo e Miguel percebeu finalmente que força enigmática fora essa que o fizera voar.

Estava feliz. Quis falar, contar o que descobrira, mas não se fez entender. As mãos do pai eram a força terna, tocando-lhe agora o rosto, enquanto o homem de cabelos grisalhos dizia – pergunta retórica -, em palavras que o filho começava já a compreender:

  • Temos que fazer isto mais vezes, não é?

Luís

 

próximos voos: Sara, Nós, Livros, Casa.

Post anterior

O caminho para um mundo saudável

Angra do Heroísmo
Post seguinte

cidade das sombras

Luis Borges

Luis Borges

Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *