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Ondjaki ainda mora aqui

Onjdaki marcou a minha vida sem dar por isso

Pode ter caído no esquecimento de todos os outros que tentavam fugir a mais uma aula de português, mas ficou para sempre na memória desta miúda pessimista.

Já passaram 13 anos. Era eu uma típica adolescente do meu tempo. Acne, hormonas descontroladas com uma forte influência de uma família constituída maioritariamente pelo sexo masculino. Talvez, por isso, fique confusa quando passo por uma escola e vejo miúdas que, ao meu lado, parecem mulheres.

Mas voltando ao que importa. Ondjaki, para quem desconhece, é um jovem escritor angolano. Falou, naquele dia para centenas de alunos numa sala que ganhou vida com as suas histórias. Era carismático e atraente.

Tinha consigo um livro que me chamou à atenção pelo seu título. Bom dia camaradas. Questionava-me sobre as suas filiações partidárias: está vestido de vermelho, pode ser que eu tenha razão. Já existe o até amanhã camaradas, bom dia camaradas. Bem só me resta  escrever o sempre almoçam camaradas.

Geeks, atletas, pessoas simplesmente estranhas como eu. Silêncio.

Há aqui alguém que queira ser escritor?

Silêncio. Silêncio. Silêncio. E então enchi-me de forças e levantei um braço a medo. Aquele gesto foi uma junção de coragem e loucura que me podia arruinar o resto da adolescência.

Disse-me que o mundo não tratava bem de nós. De nós, imaginem. Eu e o Ondjaki estávamos na mesma palavra. Eu, adolescente com a mesma porção de acne e inseguranças e ele, concretizado e vívido com um  Bom dia camaradas.

E então li aquele livro. Que não tinha tons vermelhos mas que tinha uma voz idêntica à minha. Narrado por uma criança numa Luanda diferente mas não nova. Ensinou-me que a infância tem mais cores do que as paredes do meu quarto. E com ela comecei a escrever.

Linhas. Folhas. Cadernos. Contos. Crónicas. Guiões. Tudo guardado por um impenetrável cadeado da barbie.

Encontrei o Ondjaki na feira do livro o ano passado. Gostaria de lhe ter mostrado o “sempre almoçam camaradas” que tinha escrito á 13 anos. Não o fiz.

Sara

Próxima viagem: http://www.welcomeaborges.pt/guia-amar-sem-tempo/

 

 

 

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Sara Santos

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