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os dias do desespero

esboço de conto contemporâneo

 

Era 6ª feira e há quase uma semana que o homem passeava num bolso das calças o envelope por abrir. Remetentes: a empresa, o patrão. Destinatário: um infeliz orgulhoso ainda tentando caminhar firme sobre um chão feito súbito de fina esferovite.

Na carta fechada residia o mal, estava certo, mas fazia por esquecê-lo. Não o supunha a mulher doente, não imaginavam os filhos pequenos, nem desconfiavam os amigos. O protagonista desta história há quase uma semana sorria como nunca, aliás. Falava, projectava e idealizava estranhos objectivos impossíveis – tornados de repente prováveis, plausíveis até, graças às suas candura e crença. Era um homem vestido de pele sobre a pele de um cadáver adiado. Uma ilha moribunda rodeada de mágoa por todos os lados que todavia insiste em celebrar as festas de sempre com um estrondo de nunca. Salvo erro, há quem lhe chame fé.

Era 6ª feira e a noite chegou. Confundido, deitou-se mais cedo. Não tem por hábito recordar sonhos ou pesadelos quando acorda – acha até que é coisa de maricas – mas desta vez fê-lo. Abria a carta e de lá jorravam notas de zeros gordos para garantir a educação dos miúdos; a cura milagrosa da esposa acamada vinha em meia dúzia de linhas junto com um medicamento acessível; caía ainda gentil um contrato vitalício (mais promoção) para continuar o trabalho que sempre quis, sempre fez, sempre soube. É um homem invejável – sorri-se, cínico doce. Sabe desde menino qual a sua vocação. Quantos, por aí à deriva entre ilusões dispersas, poderão dizer o mesmo?

Não abriu o envelope. Prosseguiu na sua representação do mundo perfeito. Adiou o inevitável. Passou dias a ler os jornais todos no café, cumprindo fiel os horários do emprego – onde todos supunham, claro, que ele estivesse.

“Nasceu p’raquilo”, “Unha com carne”, “É feliz”.

Engraçado como é fácil enganar toda a gente durante algum tempo, incluindo-se o próprio nessa multidão.

As semanas transformaram-se, impiedosas, num mês. Mais dois envelopes chegaram e os bolsos ficaram cheios. Despedimento, rescisão amigável, fim. Tome lá um relógio barato e uma palmadinha nas costas. Não vou ler, não vou chorar, não vou aceitar que o mundo me dê um chuto no cu e sorria como se me fizesse um favor. Vou, isso sim, sonhar de olhos abertos e a correr – como em criança – sonhar com as alegrias ao domicílio que podem (sim, podem!) estar contidas num envelope, adiar, fazer de conta. Até que amanhã, de repente no jornal:

 

Eu é que fui atrás da GNR e não eles atrás de mim”. Num acto de desespero, temperado por álcool em excesso, perseguiu ontem de madrugada um carro-patrulha da GNR de Esposende com a intenção de o abalroar. Acabou numa rua sem saída e mostrou-se com a mão no bolso, simulando ter uma pistola. Os militares dispararam cinco tiros para o ar antes de o deter. O procurador do Ministério Público abriu o inquérito e mandou o homem para casa, aconselhando-o a procurar ajuda psiquiátrica.

“Matem-me”, disse Aurélio aos militares no fim da perseguição – “Não consigo estar em casa sem trabalhar” (…).

in Correio da Manhã, 06/03/2009

Luís

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Luis Borges

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