ADVOGADO DO DIABODESTINOS

da vez do filho ser pai dos pais

Para a Maria de Lurdes e o Joaquim,

A quem nunca tratei pelos nomes próprios

Nunca sei ao certo a idade dos meus pais. Parece chocante? Não é. Não me preocupo especialmente com isso: eles já cá estavam quando comecei a pensar e nunca penso que poderão deixar de estar um dia destes. A minha mãe é uma força da natureza, talvez chegue aos 100. O meu pai, perto de novo aniversário, não tem assim tanta certeza.

Vieram a Lisboa porque ele precisa certificar-se de que está bem. Jantamos e levo-os de volta ao hotel. Quando estou prestes a arrancar, lembro-me subitamente da idade dos dois. Então, fico à espera do sinal verde para os peões. Para vê-los fazer aqueles 15 metros e passar a porta do hotel. Percebo que os papéis se inverteram: agora sou eu quem se preocupa, quem quer vê-los em segurança, vê-los em casa, bem, não demasiado perdidos pelo afastamento da ilha, no meio da “confusão e do reboliço”. E, sem que o percebam, fico em silêncio a vê-los atravessar a passadeira.

O meu pai e a minha mãe de braço dado.

Enquanto saboreio uma lágrima cujo sabor sei já que não vou esquecer. Desligo a música no carro. Saio dali a pensar que, sim, quero recordar muitas vezes esta rara imagem dos meus pais de braço dado. Quero lembrar-me sempre dela quando já não for preciso saber quantos anos fazem. Quando for tarde demais.

Luís

quiche
Post anterior

Como fazer uma quiche de legumes sem base e sem culpa

mulher
Post seguinte

Já dizia o meu professor: Pensar não provoca o cancro

Luis Borges

Luis Borges

1 Comment

  1. No Name
    7 Março, 2017 at 22:41 — Responder

    Cum car….lho!
    Desculpa sair assim…
    Acertas mesmo!
    Brilhante!
    Obrigado!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *