LIFESTYLE

Polaroids dum Açoriano em Lisboa

crónica para a revista do Turismo de Lisboa

 

Lembro-me bem, o ritual era regular. Entre as duas e as quatro da manhã lá ia o escriba num impulso, pouco importava a estação do ano. A ressaca do mar açoriano e as saudades vulcânicas de casa transportavam-me, e ao maço de cigarros, para um qualquer recanto das margens do Tejo. O rio como sucedâneo, nos dias piores metadona para o vício do oceano atlântico. Um cigarro à chuva e a imaginação fazia o resto do trabalho, incluindo palavras de mãe: agasalhar.

Outra vez, estudante ainda, num fim de tarde no Adamastor, e o desabafo inesquecível dum amigo alfacinha.

“Se fosse possível engarrafar a luz de Lisboa, estaria rico”.

Ver pelos olhos de Wim Wenders nas esquinas e ruelas dos bairros típicos.

Aquela etapa do caminho, na passagem dos vinte para os trinta, em que bati casas de fado como um sedento turista recém-divorciado.

Os meses sem carta de condução e a redescoberta a pé duma capital que, afinal, ia muito para além dos segundos andares do costume.

Fazer um amigo para sempre em pleno Terreiro do Paço, num dia passado a conduzir casting a 5 historiadores para um futuro programa da RTP.

Sentir-me velho pela primeira vez, há coisa de dois anos, na última vez que fui ao Bairro Alto nocturno.

Saber-me enfim adoptado pela cidade quando expliquei, tintim por tintim, a um casal belga como ir da Avenida da Liberdade para a Graça.

Ter um sítio “meu” há mais de meia vida. O Snob, na Rua do Século, frequentado desde os 19 anos. O sempiterno bife até às 3 da manhã, as centenas de páginas que lá escrevi. Também as bebedeiras suaves regadas em tertúlias de horas perdidas com todos os amigos. Porque é pura e simplesmente obrigatório levá-los lá.

Voltar, sempre, e sem ressentimentos, aos sítios onde já fui feliz, mesmo quando habitados por risonhos fantasmas do passado.

Reencontrar a agora fulgurante Lisboa oriental através dum poema antigo do meu irmão.

A ingenuidade do entusiasmo com as montras e portas novas da cidade.

O cinismo perante uma quiçá excessiva gentrificação.

Um orgulho juvenil por constatar Lx nos píncaros da moda mundial, um receio maduro do porvir.

Lisboa, obrigado por seres nossa neste empréstimo de ossos. Possamos todos tirar uma vez que seja uma fotografia eterna do alto do arco no Terreiro do Paço. Ou no meandro das caves cujas estacas pombalinas te sustentam aberta para o resto das gentes – oxalá sábias – do mundo.

Abraço-te desde o Cais das Colunas, à espera dum barco que não vem.

Luís

Quando a Faísca Conheceu o Farrusco, teatro infantil, Algés, Companhia de Actores, Teatro Amélia Rey Colaço
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Luis Borges

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