ADVOGADO DO DIABODESTINOS

prometo dar o meu pior

das coisas portuguesas

Tenho medo de um país em que toda a gente promete dar o seu melhor. É a resposta mais ouvida em entrevistas televisivas logo depois de “O tempo o dirá”. Pois. E o que nos diz o tempo? Na mais objectiva expressão científica, diz-nos “que está de chuva”. Milhões de portugueses ao longo dos séculos a dar o seu melhor e o melhor que conseguimos foi isto?
Uma pessoa que promete dar o seu melhor é porque está convencida que esse “melhor” é “muitabom”. Conclusão: mais uma vez não se aprendeu com as lições da História. Os nossos marinheiros de quinhentos não iam lá dar o seu melhor. Só estavam nos barcos os condenados, desterrados ou simplesmente desesperados. Coitados. Não, nem por isso. Iam com esperança de trocar fluidos com umas belas nativas – alguém os pode censurar? Até mesmo nos seus líderes se vê o mesmo. Recordemos a conversa entre D.Manuel e Pedro Álvares Cabral:

– Álvares, man…

– Yoh!

– Quero que comandes a segunda armada para a Índia.

– Bacano, mas e o Vasco?

– O Vasco já se encheu do guito. ‘Tá noutra.

– Ok, tá-se.

 

estado das coisas

Ou seja, o registo histórico prova-nos que Pedro Álvares Cabral não prometeu nada de épico ao rei. Resultado: chegou à Índia e, de caminho, ainda descobriu o Brasil.

Houve um tempo em que os portugueses não eram arrogantes. Ninguém prometia o seu melhor. Hoje, é o que se vê: o nosso Nobel da literatura dava o seu melhor desde uma ilha espanhola. O nosso maior craque da bola fala inglês macarrónico na sua casa espanhola com as namoradas estrangeiras e o filho importado. E o nosso único actor em Hollywood, sempre que dá o seu melhor, é a fazer de traficante de droga sul-americano. É bem feito.

Até o nosso Nobel da Medicina, outro homem que deu o seu melhor, recebeu o prémio por uma técnica – a da lobotomia pré-frontal – que, aplicada hoje, faria de um homem uma bela hortaliça.

à laia de conclusão

Ele há coisas, aliás, em que não faz sentido dar o nosso melhor. Por exemplo, um adepto de futebol. Faria sentido um verdadeiro adepto que, ao menos uma vez por ano, não destruísse uma estaçãozinha de serviço ou proferisse coisas de fazer corar o Fernando Rocha?

Ou no sexo? Alguém pensa em dar o seu melhor na cama? Uma coisa animal, em que se está nu, suado, aos gritos e onde até mesmo um ateu chama por Deus? Penso que não.

Alternativas:
“Ok, vou ver o que é que se pode fazer.”

“Tá bem, eu faço isso. Mas sou português, depois não digam que não avisei.”

“Meu amigo, faço o que posso.”

“Sim, aceito o seu convite para Ministro mas só tenho duas mãos.”
Está na altura de nos deixarmos de armar em modelos que vão para actores de telenovelas e prometem dar o seu melhor. Está na altura de aplicar o legado de Egas Moniz e lobotomizar o Sócrates. Está na altura de dizer ao Chagas Freitas que escusa de escrever o mesmíssimo livro tantas vezes. Está na altura de acabar esta crónica.

Luís

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Luis Borges

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