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São Tomé: Memórias vindas do Sul

Chinelo no pé, sonhos na mão II

As melhores memórias são feitas de más experiências. Aquelas que no momento em que as vivemos temos uma vontade de gritar: filha da mãe! Mas porque é que não fiquei em casa…Mais tarde são essas peripécias mal amanhadas que adoramos contar aos amigos. As grandes histórias são assim. Um dos nossos dias em São Tomé foi assim. Potenciou histórias para os próximos anos de convívio.

Segunda tentativa rumo ao sul e às suas praias postal. Sem mapa porque nos esquecemos da única coisa que realmente seria preciso e que acabou por não ser. Afinal só existe uma estrada principal. Demorámos cerca de uma hora de grandes paisagens até chegar ao caminho do inferno. Nome dado por mim após trinta quilómetros de pedras de todos os tamanhos, buracos e lama.

O horizonte fica cada vez mais deslumbrante. Ao passarmos pelas aldeias conseguimos ver que existe uma cobrança da natureza. As aldeias despem-se de bens, a escassez é visível. O sul é um senhorio rigoroso.

Chegamos a Porto Alegre, o nosso único ponto de referência. Uma estreia aos meus olhos. Só vendo, só sentindo, só abraçando aquele lugar. E as praias já não parecem importar. Mas lá chegamos.

Praia Piscina, praia Inhame, praia Gguembu. Água quente, palmeiras e areia que nos enterra os pés de conforto. Mas, como eu disse, nada disto parece importar.

Encontramos os nossos amigos no sul. A mãe e filha que estão na mesma aventura que nós e o Wilson, um são-tomense que nos acolheu. O tempo passa e sem darmos conta anoitece. Ou seja, são umas dezassete horas e meia.

Voltamos à estrada. Mais relaxados e… furamos o primeiro pneu. Estamos no meio do nada. Não saberíamos descrever melhor. E a única pessoa que aparece para ajudar vem, também ela do nada. Um local, como é claro: “Normalmente os brancos ficam com medo de sair do carro, mas eu não faço mal”. Um carro de turistas passa por nós sem parar. Existe uma verdade nas suas palavras.

Pouco depois o segundo furo. E o segundo carro fica sem gasolina. Paramos numa aldeia e sem dar conta temos dezenas de pessoas no meio do breu a rodear os carros. Crianças do meu lado, adultos do lado do Luís. Quando baixo o vidro sorriem, pedem doces, um hábito que aprenderam com os turistas. Mas nada tenho para lhes dar. E então falamos: O teu cabelo é natural? Como te chamas? Voltas cá amanha? E sorriem com as respostas. Não existe maldade naqueles sorrisos.

Voltamos cansados. encharcados. Por estradas sem regras ao ritmo de um leve-leve. Tememos o pior.

Ainda bem que há dias assim.

Sara

 

 

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