ADVOGADO DO DIABODESTINOS

a simulação de algo que nunca existiu

“As Baudrillard says, ‘something in all men profoundly rejoices in seeing a car burn’ (MP, 141). Thus, for Baudrillard, a counter-gift is always possible to a system which tries to replace, ignore or drown out with images and messages and consumer technologies that wich is inevitable: (…) In short, what haunts the system is the symbolic demand (MP, 147)

                                               William Merrin, Baudrillard and the Media, pag.27

Talvez andemos distraídos. ‘Star Wars – A Ameaça Fantasma’, voltou a estrear nas salas de cinema. Confuso? Nós talvez estejamos. Confusos e distraídos, sem nos apercebermos sequer da figura que fazemos com os óculos 3D estampados na cara. O mundo foi conquistado pela hiper-realidade, ou – como lhe chamou com precisão cirúrgica Umberto Eco – ‘o engano autêntico’. Aqui vamos nós a caminho dos cinemas à procura de experienciar uma realidade impossível, que nunca existiu, integrar um mundo de fantasia dominado pela ficção científica (na ilusão de que os óculos alegadamente tridimensionais nos colocarão dentro deste universo perfeitamente inverosímil – “A simulação de algo que nunca existiu realmente”, segundo Baudrillard).

E assim somos, sem nos darmos conta, precedidos pelo simulacro. Talvez até, quando abandonarmos a sala, troquemos este par pelo nosso do dia-a-dia. Uns óculos Prada que nos custaram, por ironia, os olhos da cara. Foi o seu valor justo? Adequado à sua função e utilidade? Porventura pouco acima do preço de custo? Não. Pagámos o signo, o estatuto, o facto de serem daquela marca diz algo sobre nós. Ou melhor, nós esperamos que diga. Desejamos que diga aos outros que aquele signo, como já agora o eventual carro desportivo vistoso no qual nos conduziremos a casa, impõe um status, define-nos como um ser acima dos outros, da média, da maralha. Já no repouso do lar, provavelmente vamos sentar-nos diante do pc durante horas, conectados, on-line, comentando ‘posts’ de amigos intitulados virtuais, partilhando eventualmente as notícias mais chamativas do dia e, sem hierarquia de valor, acumularemos nesse vaivém desconexo a notícia da americana que só não morreu num acidente de viação porque os seus massivos implantes de silicone funcionaram como ‘airbag’, junto com a informação de mais um massacre na Síria. Ainda há dias dei comigo num ‘debate’ em pleno Facebook por causa do comentário agreste de alguém à fotografia de uma conhecida minha, capa da última edição da ‘GQ’. Dizia ele que era só Photoshop. Não tem razão. Mas é verdade que esse tipo de imagens são outro exemplo do hiper-real: mulheres sem dúvida belas, tornadas contudo ainda mais belas, sem uma estria, uma réstea de celulite, a pele inenarravelmente lisa. Clones mais perfeitos que o original. O cineasta António-Pedro Vasconcelos, em coluna recente no semanário SOL, e a propósito da falência da Kodak, define esta era como a do ‘triunfo do digital’. E, preocupado com a possibilidade de a Cinemateca, por exemplo, desprezar em prol desta nova tecnologia a preservação das cópias de filmes clássicos em película, interroga-se sobre o que será feito da nossa memória. Estamos cada vez mais longe do original, os símbolos são – quanto muito – uma memória distante. Eventualmente distraídos por tudo isto, não reparámos no facto de estarmos a reencarnar a fábula de J. L. Borges, “em que os cartógrafos do Império desenham um mapa tão detalhado que acaba por cobrir exactamente o território (mas o declínio do Império assiste ao lento esfarrapar deste mapa e à sua ruína, podendo ainda localizar-se alguns fragmentos nos desertos”.Penso, modestamente, que poderíamos traduzir o império, hoje, por União Europeia. E restam poucas dúvidas de que este se desmorona aos poucos, à nossa volta. Assim, julgo que, no Portugal actual, podemos encontrar a ‘representação’ na bandeira. Há um processo dialético que se estabelece, do seguinte e grosso modo: a bandeira nacional representa a pátria, através desta sei aonde pertenço. Aliás, o simbólico aqui desempenha um papel tão forte que é crime conspurcar a bandeira ou o hino nacional. Há uma ambivalência clara, uma ligação entre as partes (país e cidadãos). Claro que, para citar William Merrin (Baudrillard and The Media, pág. 41), “Baudrillard’s reconceptualization of his critique in terms of (…) enchanted and disenchanted simulacra (…) leaves unanswered the problem of how we should distinguish ‘good’ symbolic and ‘bad’ simulacra”. Contudo, creio que – no exemplo da bandeira nacional – ainda há latente uma mediação do real. Exemplo: Nélson Évora sagra-se campeão olímpico, a bandeira sobe, ouve-se o hino, todos os portugueses vibram de orgulho. Abrindo agora um pequeno parêntesis para abordar, no contexto contemporâneo, a distinção de Baudrillard no que diz respeito ao Simbólico vs. Semiótico, diria que me parece ser possível explicar toda esta polémica actual à volta da decisão governamental em não dar tolerância de ponto durante o Carnaval como um atentado que o povo sentirá (no seu âmago) a uma das raras ocasiões em que pode manifestar-se o Simbólico. Ora vejam-se estas palavras de William Merrin citando Durkheim (pág. 13), troque-se ‘Religião’ por ‘Carnaval’, e reflictamos se não será uma boa analogia: “Religion operates to raise man above himself and make him lead a life superior to that wich he would lead if he followed his own individual whims” – e comenta – “Thus our highest experience is attained collectively and socially through a communion with others”. Ou, para citar Caillois – também adaptado ao Carnaval – “The festivals are a time of intense emotion and a metamorphosis of… being” (Man and the Sacred, 1980:99). Fim do parentesis. Já o simulacro proponho encontrá-lo em dois níveis: primeiro, e para seguir na coerência do exemplo acima, a própria noção de Portugal como país independente está hoje ameaçada pela clara, quando não mesma assumida, sujeição a rigorosos parâmetros definidos pelo exterior (o memorando da famigerada Troika / ou críticas destrutivas das agências de rating), assim se podendo colocar legitimamente a pergunta sobre se somos ainda um território ‘per se’ ou um estado federado (e subordinado). Isto é, Portugal, ele próprio, como um simulacro de país. O segundo nível onde sugiro encontrar o simulacro, actualmente, neste cantinho à beira-mar plantado, está no nosso estilo de vida: aquele que, desde a década santa dos fundos europeus que inundaram o país durante o chamado ‘cavaquismo’, nos levou a crer (e a praticar) que poderíamos ter ‘o que se não tinha’. O grande carro, a roupa de marca, eventualmente até a casa de férias. Daí o crédito mal-parado de hoje, a dívida externa, a incredulidade perante o falhanço do sistema consumista e aquela noção sobranceira dos economistas segundo a qual ‘o mercado encontrará sempre a solução’. E assim chegámos, distraídos pela hiper-realidade de casinos e multinacionais globalizadas, a um estado de zombificação. Para Baudrillard, os media são um monólogo sem resposta. Imitamos as imitações, achamos que assim é como se vive, e os modelos dos média impõe a sua lei: reality-shows, ídolos pré-fabricados como Lady Gaga, fracassos tornados sucessos (ex: Hélio Imaginário, o rapaz do ‘epic fail’ das Caldas, agora estrela em anúncios publicitários). Onde está o ‘real’? Talvez precisamente nas aldeias do chamado ‘país real’, entre gente simples, sem internet e quiçá com uma horta. Talvez mesmo, e perante a dureza da vida, regressando à ‘troca simbólica’ pura, original, de frangos por sacas de batatas. Ou talvez o ‘real’ esteja numa excepção à regra (“For Baudrillard the only revolution – nos média – ‘lies in restoring the possibility of a response’”, William Merrin, pag.20): ela existe, como o demonstra a Primavera Árabe – série de insurreições populares organizadas espontaneamente nas redes sociais e que acabaram por derrubar regimes. Resta-nos, a esta geração perdida, o livre-arbítrio e uma pulsão crescente para a mudança, senão mesmo a violência.

Luís

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