ADVOGADO DO DIABODESTINOS

Tantas vezes são poucos

Game Ovar

 

Viro à esquerda ao sair do restaurante e Paulo Moura confia. Foi-nos transmitido que o evento fica a menos de 5 minutos a pé. São meras duas curvas. Perco-me. Durante o curto rastreio de regresso ao norte, o jornalista conta-me – com a humildade de quem se limita a responder a uma questão, tremenda curiosidade minha – sobre as recentes 3 semanas em Mossul como repórter freelance. “Dormia num cemitério, que era também uma vala comum. De noite havia ‘brisa’: 43 graus”. O escriba, que ainda hoje se perde na sua oval ilha Terceira, enrubesce. 

Estamos em Ovar para a 3ª edição do Festival Literário e vamos partilhar a primeira mesa, submetida a uma frase de Cardoso Pires. “Toda a polémica é uma encenação”. Carlos Granja é o amador, no sentido puro e etimológico, que organiza esta empreitada. Além de professor e proprietário duma livraria, conhece a fundo as dezenas de nomes que convida para um certame de 4 dias. Modera debates. É guia turístico. Uma daquelas almas raras de que tanto o presente como o futuro necessitam na mesma medida.

Há uma pequena cerimónia relativamente formal para abrir o evento e o vereador da Cultura agradece à sua equipa, “que tantas e tantas vezes são poucos para o serviço que há a fazer”. Tantas vezes são poucos. Sussurra-me PM, “bom título para um romance”. Fica título de post, para já, nem que seja como memória futura.

Estão 50 pessoas defronte, numa tenda elegante montada num jardim. A brisa desta noite é quase 30 graus mais fresca que a de Mossul. Viajo no tempo: há exactamente meia vida criei com dois grandes amigos uma revista literária na faculdade. INVENTIO, a partir da palavra latina para Criação. Tínhamos 3 grandes sonhos, esse trio de putos hoje quarentinhas: entrevistar Ferreira Fernandes, Luís Osório e Paulo Moura. Todos cumpridos mas, há duas décadas, não fui um dos que teve o prazer presencial de estar com o homem cuja recente saída do “Público” foi a machadada final no que sobrava de dignidade a essa outrora grande jornal.

Game Ovar

O meeting dá-se enfim duas horas antes do painel, no PH, restaurante onde uma fragrância nos invade com espanto. Vem do terraço, duma robusta planta chamada Dama da Noite. Carlos, o jovem proprietário que jogou na mítica Ovarense do basket, faz questão de nos oferecer ramos que implanta em batatas. “Assim ela cria raiz quando plantarem”. Nenhum de nós conhecia o truque, ou então fomos iludidos por um ilusionista de suprema elegância.

De regresso ao FLO, onde entrámos acompanhados pelas respectivas Damas da Noite e suas batatas. Falamos de fake news, virgens ofendidas, fogueiras nas redes sociais, comunidades que teimam em viver nas margens mais distantes possível da aldeia global, terrorismo e, bom, dos nossos livros. Nunca é tarde para conhecer um ídolo e perceber, com alegria juvenil, que afinal nem todos têm pés de barro. É uma hora intensa e bem orientada pelo Carlos, potenciador duma tão bem engendrada teia de temas que, súbito, o palco é visitado por uma aranha digna de Spielberg. Uma senhora de idade assusta-se com a dimensão do bicho. Volto a Mossul e a um relato breve de PM. A cidade foi de tal forma duplamente dizimada, pelo Daesh e depois, para abater a presença do Daesh, que vive um estado de negação. “O guia que consegui desta vez falava-me com orgulho e olhos brilhantes sobre ‘este grande café’, aquela ‘histórica biblioteca’ e apontava para nada mais do que absolutos escombros e ruínas”.

Ao serão, no bar reaberto do hotel por obra e graça da proverbial hospitalidade nortenha, dois homens of a certain age bebem um Logan old fashioned, trocam dedicatórias nos volumes um do outro, e afastam-se do mundo através de gargalhadas:  “Não achas que devíamos vender à Câmara Municipal um grande evento anual de gaming e vídeo-jogos?”

O nome: GAME OVAR.

Godspeed, Mr.Moura. Luz, sabedoria e força, sempre, nos destinos mais perigosos do mundo. Já não se fazem, pura e simplesmente, jornalistas assim.

Luís

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